terça-feira, 10 de setembro de 2013


LA POSSESSION DU MONDE

Os homens célebres visitam a cidade.
Obrigatoriamente exaltam a paisagem.
Alguns se arriscam no Mangue,
outros se limitam ao Pão de Açucar,
mas somente Georges Duhamel
passou a manhã inteira no meu quintal.
Ou antes, no quintal vizinho do meu quintal.
Sentado na pedra, espiando os mamoeiros,
conversava com eminente neurologista.

Houve uma hora em que ele se levantou
(em meio a erudita dissertação científica).
Ia, talvez, confiar a mensagem da Europa
aos corações cativos da jovem América...
Mas apontou apenas para a vertical
e pediu ce cocasse fruit jaune

Interpretação:

Neste poema , Drummond indica o membro da Academia Francesa de Letras, em 1884, Georges Duhamel, pedindo uma risível fruta estragada, como se isso fosse, como diz o título do poema, ter o mundo nas mãos.
O poema é praticamente uma ironia sobre alguém que provavelmente seja um estudioso que abandona sua vida acadêmica para aderir uma fruta amarela engraçada ("ce cocasse fruit jaune").

(Aluno : Igor)


BOLERO DE RAVEL
alma ativa e obcecada
enrola-se infinitamente numa espiral de desejo
e melancolia
Infinita, infinitamente...
As mãos não tocam jamais o aéreo objeto
esquiva ondulação evanescente
Os olhos, magnetizados, escutam
e no círculo ardente nossa vida para sempre está presa
está presa...
Os tambores abafam a morte do Imperador..

Interpretação:

Trata-se de uma canção repetitiva, que apenas retorna ao seu tema a todo instante, e a cada repetição, intensifica um pouco mais a sua força("espiral de desejo", "infinita, infinitamente" e "círculo ardente").
O poema ao pé da letra se refere a morte de alguém  importante, pretendendo relatar a vida e os obstáculos dela.

(Aluno : Igor)

segunda-feira, 9 de setembro de 2013


Indecisão do Méier

Teus dois cinemas, um ao pé do outro, por que não se afastam
para não criar, todas as noites, o problema da opção
e evitar a humilde perplexidade dos moradores?
Ambos com a melhor artista e a bilheteira mais bela,
que tortura lançam no Méier!

Interpretação:
Drummond quis mostrar sua indignação sobre o que estava vivendo naquela época com esse poema, interpretando-os através de uma indecisão cruel entre dois cinemas, pois ambos têm seu charme natural, seus artistas espetaculares dentre outras coisas, fala que os dois poderiam ser separados para que não houvesse essa dúvida. Nesse poema, ele faz uma pequena critica às pessoas dizendo que elas não precisam viver em um mundo quadrado onde o que a maioria decide é o certo para todos ,mas sim viver sua vida como se fosse o último.

(Alunas : Pamela e Giovanna)

Canção do Berço

O amor não tem importância.
No tempo de você, criança,
uma simples gota de óleo
povoará o mundo por inoculação,
e o espasmo
(longo demais para ser feliz)
não mais dissolverá as nossas carnes.

Mas também a carne não tem importância.
E doer, gozar, o próprio cântico afinal é indiferente.
Quinhentos mil chineses mortos, trezentos corpos
[de namorados sobre a via férrea
e o trem que passa, como um discurso, irreparável:
tudo acontece, menina,
e não é importante, menina,
e nada fica nos teus olhos.

Também a vida é sem importância.
Os homens não me repetem
nem me prolongo até eles.
A vida é tênue, tênue.
O grito mais alto ainda é suspiro,
os oceanos calaram-se há muito.
Em tua boca, menina,
ficou o gosto do leite?
ficará o gosto de álcool?

Os beijos não são importantes.
No teu tempo nem haverá beijos.
Os lábios serão metálicos,
civil, e mais nada, será o amor
dos indivíduo perdidos na massa
e só uma estrela
guardará o reflexo
do mundo esvaído
(aliás sem importância).

Interpretação:
O poema “Canção do Berço” é um dos mais interessantes e fortes do livro, pois apenas trata-se de ideias negativas, como o amor que já passou, um beijo, as mortes já acontecidas, também se trata no poema que a vida é tênue, pequena, frágil e muito rápida, por causa da Ditadura Militar e de vários outros acontecimentos mundo a fora, fala que você não precisa passar a vida muito rápida porque se não ninguém irá perceber a sua presença e, entre as pessoas há um certo tipo de frieza com o trecho:  “Os lábios serão metálicos”. Com isso nos mostra que nosso destino está marcado desde o começo, mas nem por isso precisamos nos prender a ele como se você fosse uma marionete, pois como diz o poema nada tem importância. 

(Alunas : Pamela e Giovanna)
Operário no Mar

Na rua passa um operário. Como vai firme! Não tem blusa. No conto, no drama, no discurso político, a dor do operário está na blusa azul, de pano grosso, nas mãos grossas, nos pés enormes, nos desconfortos enormes. Esse é um homem comum, apenas mais escuro que os outros, e com uma significação estranha no corpo, que carrega desígnios e segredos. Para onde vai ele, pisando assim tão firme? Não sei. A fábrica ficou lá atrás. Adiante é só o campo, com algumas árvores, o grande anúncio de gasolina americana e os fios, os fios, os fios. O operário não lhe sobra tempo de perceber que eles levam e trazem mensagens, que contam da Rússia, do Araguaia, dos Estados Unidos. Não ouve, na Câmara dos Deputados, o líder oposicionista vociferando. Caminha no campo e apenas repara que ali corre água, que mais adiante faz calor. Para onde vai o operário? Teria vergonha de chamá-lo meu irmão. Ele sabe que não é, nunca foi meu irmão, que não nos entenderemos nunca. E me despreza... Ou talvez seja eu próprio que me despreze a seus olhos. Tenho vergonha e vontade de encará-lo: uma fascinação quase me obriga a pular a janela, a cair em frente dele, sustar-lhe a marcha, pelo menos implorar lhe que suste a marcha. Agora está caminhando no mar. Eu pensava que isso fosse privilégio de alguns santos e de navios. Mas não há nenhuma santidade no operário, e não vejo rodas nem hélices no seu corpo, aparentemente banal. Sinto que o mar se acovardou e deixou-o passar. Onde estão nossos exércitos que não impediram o milagre? Mas agora vejo que o operário está cansado e que se molhou, não muito, mas se molhou, e peixes escorrem de suas mãos. Vejo-o que se volta e me dirige um sorriso úmido. A palidez e confusão do seu rosto são a própria tarde que se decompõe. Daqui a um minuto será noite e estaremos irremediavelmente separados pelas circunstâncias atmosféricas, eu em terra firme, ele no meio do mar. Único e precário agente de ligação entre nós, seu sorriso cada vez mais frio atravessa as grandes massas líquidas, choca-se contra as formações salinas, as fortalezas da costa, as medusas, atravessa tudo e vem beijar-me o rosto, trazer-me uma esperança de compreensão. Sim, quem sabe se um dia o compreenderei?

Interpretação:

No poema, Carlos Drummond de Andrade conta a história de um operário que faz o seu trabalho com força e raça, o eu lírico fala de um jeito que o trabalho dele é bem diferente do operário e que nunca irão se entender.
Quando ele vê o operário caminhando pelo mar ele acha aquilo impossível de se fazer, está anoitecendo e então ele repara que há um sorriso entre os dois e esse sorriso poderia mudar tudo e quem sabe um dia os dois não se entenderão.


(Alunas : Danielle e Regiane) 

TRISTEZA DO IMPÉRIO

Os conselheiros angustiados
ante o colo ebúrneo
das donzelas opulentas
que ao piano abemolavam
“bus-co a cam-pi-na se-re-na
pa-ra-li-vre sus-pi-rar”,
esqueciam a guerra do Paraguai,
o enfado bolorento de São Cristóvão,
a dor cada vez mais forte dos negros
e sorvendo mecânicos
uma pitada de rapé,
sonhavam a futura libertação dos instintos
e ninhos de amor a serem instalados nos arranha-céus de
Copacabana,
[com rádio e telefone automático.
Carlos Drummond de Andrade, Sentimento do mundo.

Interpretação: 

No poema, o eu lírico descreve e ataca alguns costumes da alta sociedade, que pode ser considerada egoísta, pois apenas tem preocupações com os próprios interesses, sejam eles comerciais ou não.
A obra se coloca a serviço da análise crítica da realidade, o que é uma característica presente na poesia modernista da 2ª fase.
O eu lírico também relaciona a História ao modernismo e no poema são citados acontecimentos histórios, santos, etc e ainda há uma referência aos arranha-céus, que já eram uma realidade na época de Drummond.
Este poema é uma crítica direta aos costumes e pensamentos da sociedade mais ”abastada”, que continua com uma ideologia ultrapassada e com uma certa “mesmice” ao passar dos anos.

(Aluno  : Carlos)

Confidência do Itabirano

Alguns anos vivi em Itabira. 
Principalmente nasci em Itabira.
 
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
 
Oitenta por cento de ferro nas almas.
 
E esse alheamento do que na vida é porosidade e
 
comunicação.

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.
 
E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
 
é doce herança Itabirana.

De Itabira trouxe prendas que ora te ofereço:
 
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
 
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa...

Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
 
Hoje sou funcionário público.
 
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
 
Mas como dói.

DESCRIÇÃO DO POEMA :

O poema começa com a saudade profunda da terra onde nasceu, trabalhou e viveu a metade de sua vida. Ele demonstra a tristeza, amor e grandes saudades de sua terra natal.
A tristeza pode ser vista na 5ª estrofe, onde no primeiro verso diz “ Tive ouro, tive gado, tive fazenda ” e logo a sua decadência encontrada no verso “ Hoje sou funcionário público “.
A saudade é observada pelo modo em que ele se lembra de sua vida doce e divertida em Itabira, virando apenas uma linda lembrança como é relatado no verso “Itabira é apenas uma fotografia na parede ”.
Neste poema, é possível observar antítese como na 2ª estrofe, verbos “sofrer” ediverte”. Também nota-se uma leve descrição desta cidade na 2ª estrofe, segundo verso “vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes”.

(Alunos : Andressa,Ester)