sexta-feira, 6 de setembro de 2013


Canção da Moça-Fantasma de Belo Horizonte

Eu sou a Moça-Fantasma 
que espera na Rua do Chumbo
o carro da madrugada.
 
Eu sou branca e longa e fria,
a minha carne é um suspiro
 
na madrugada da serra.
 
Eu sou a Moça-Fantasma. O meu nome era Maria,
 
Maria-Que-Morreu-Antes.

Sou a vossa namorada
 
que morreu de apendicite,
 
no desastre de automóvel
 
ou suicidou-se na praia
 
e seus cabelos ficaram
 
longos na vossa lembrança.
 
Eu nunca fui deste mundo:
Se beijava, minha boca
 
dizia de outros planetas
 
em que os amantes se queimam
 
num fogo casto e se tornam
 
estrelas, sem irônia.
Morri sem ter tido tempo
 
de ser vossa, como as outras.
 
Não me conformo com isso,
 
e quando as polícias dormem
 
em mim e foi-a de mim,
 
meu espectro itinerante
 
desce a Serra do Curral,
 
vai olhando as casas novas,
ronda as hortas amorosas
 
(Rua Cláudio Manuel da Costa),
 
pára no Abrigo Ceará,
 
nao há abrigo. Um perfume
 
que não conheço me invade:

é o cheiro do vosso sono
 
quente, doce, enrodilhado
 
nos braços das espanholas.
 
– Oh! deixai-me dormir convosco.

E vai, como não encontro
nenhum dos meus namorados,
que as francesas conquistaram,
e cine beberam todo o uísque
existente no Brasil
 
(agora dormem embriagados),
 
espreito os Carros que passam
 
com choferes que não suspeitam
 
de minha brancura e fogem.
 
Os tímidos guardas-civis,
 
coitados! um quis me prender.
 
Abri-lhe os braços... Incrédulo,
 
me apalpou. Não tinha carne
 
e por cima do vestido
 
e por baixo do vestido
 
era a mesma ausência branca,
 
um só desespero branco...
Podeis ver: o que era corpo
foi comido pelo gato.

As moças que’ ainda estão vivas
 
(hão de morrer, ficai certos)
 
têm medo que eu apareça
 
e lhes puxe a perna... Engano.
Eu fui moça, Serei moça
deserta, per omnia saecula.

Não quero saber de moças.
 
Mas os moços me perturbam.
 
Não sei como libertar-me.
Se o fantasma não sofresse,
 
se eles ainda me gostassem
 
e o espiritismo consentisse,
 
mas eu sei que é proibido
 
vós sois carne, eu sou vapor.

Um vapor que se dissolve
 
quando o sol rompe na Serra.

Agora estou consolada,
 
disse tu do que queria,
 
subirei àquela nuvem,
 
serei lâmina gelada,
 
cintilarei sobre os homens.
Meu reflexo na piscina da Avenida Paraúna
 
(estrelas não se compreendem),
 
ninguém o compreenderá.

Análise:

Drummond relata em sua obra uma lenda urbana, que parte de uma moça fantasma, a qual vai atrás dos homens à procura de companhia durante a noite.
O poema fala sobre a solidão do espírito assombrado, devido a assuntos que ficaram pendentes no "mundo dos vivos".
Durante a noite, a moça-fantasma surge à procura de homens, em busca de relações que enquanto era viva não havia conseguido ter. Ela se mostra inconformada por ter partido antes de realizar seus desejos, e não sabe como se libertar desse mal.
Com o nascer do Sol, o espírito se evapora e aguarda até que ele se ponha para voltar na noite seguinte.

(Aluno: Caique e Luiz)

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