terça-feira, 10 de setembro de 2013


LA POSSESSION DU MONDE

Os homens célebres visitam a cidade.
Obrigatoriamente exaltam a paisagem.
Alguns se arriscam no Mangue,
outros se limitam ao Pão de Açucar,
mas somente Georges Duhamel
passou a manhã inteira no meu quintal.
Ou antes, no quintal vizinho do meu quintal.
Sentado na pedra, espiando os mamoeiros,
conversava com eminente neurologista.

Houve uma hora em que ele se levantou
(em meio a erudita dissertação científica).
Ia, talvez, confiar a mensagem da Europa
aos corações cativos da jovem América...
Mas apontou apenas para a vertical
e pediu ce cocasse fruit jaune

Interpretação:

Neste poema , Drummond indica o membro da Academia Francesa de Letras, em 1884, Georges Duhamel, pedindo uma risível fruta estragada, como se isso fosse, como diz o título do poema, ter o mundo nas mãos.
O poema é praticamente uma ironia sobre alguém que provavelmente seja um estudioso que abandona sua vida acadêmica para aderir uma fruta amarela engraçada ("ce cocasse fruit jaune").

(Aluno : Igor)


BOLERO DE RAVEL
alma ativa e obcecada
enrola-se infinitamente numa espiral de desejo
e melancolia
Infinita, infinitamente...
As mãos não tocam jamais o aéreo objeto
esquiva ondulação evanescente
Os olhos, magnetizados, escutam
e no círculo ardente nossa vida para sempre está presa
está presa...
Os tambores abafam a morte do Imperador..

Interpretação:

Trata-se de uma canção repetitiva, que apenas retorna ao seu tema a todo instante, e a cada repetição, intensifica um pouco mais a sua força("espiral de desejo", "infinita, infinitamente" e "círculo ardente").
O poema ao pé da letra se refere a morte de alguém  importante, pretendendo relatar a vida e os obstáculos dela.

(Aluno : Igor)

segunda-feira, 9 de setembro de 2013


Indecisão do Méier

Teus dois cinemas, um ao pé do outro, por que não se afastam
para não criar, todas as noites, o problema da opção
e evitar a humilde perplexidade dos moradores?
Ambos com a melhor artista e a bilheteira mais bela,
que tortura lançam no Méier!

Interpretação:
Drummond quis mostrar sua indignação sobre o que estava vivendo naquela época com esse poema, interpretando-os através de uma indecisão cruel entre dois cinemas, pois ambos têm seu charme natural, seus artistas espetaculares dentre outras coisas, fala que os dois poderiam ser separados para que não houvesse essa dúvida. Nesse poema, ele faz uma pequena critica às pessoas dizendo que elas não precisam viver em um mundo quadrado onde o que a maioria decide é o certo para todos ,mas sim viver sua vida como se fosse o último.

(Alunas : Pamela e Giovanna)

Canção do Berço

O amor não tem importância.
No tempo de você, criança,
uma simples gota de óleo
povoará o mundo por inoculação,
e o espasmo
(longo demais para ser feliz)
não mais dissolverá as nossas carnes.

Mas também a carne não tem importância.
E doer, gozar, o próprio cântico afinal é indiferente.
Quinhentos mil chineses mortos, trezentos corpos
[de namorados sobre a via férrea
e o trem que passa, como um discurso, irreparável:
tudo acontece, menina,
e não é importante, menina,
e nada fica nos teus olhos.

Também a vida é sem importância.
Os homens não me repetem
nem me prolongo até eles.
A vida é tênue, tênue.
O grito mais alto ainda é suspiro,
os oceanos calaram-se há muito.
Em tua boca, menina,
ficou o gosto do leite?
ficará o gosto de álcool?

Os beijos não são importantes.
No teu tempo nem haverá beijos.
Os lábios serão metálicos,
civil, e mais nada, será o amor
dos indivíduo perdidos na massa
e só uma estrela
guardará o reflexo
do mundo esvaído
(aliás sem importância).

Interpretação:
O poema “Canção do Berço” é um dos mais interessantes e fortes do livro, pois apenas trata-se de ideias negativas, como o amor que já passou, um beijo, as mortes já acontecidas, também se trata no poema que a vida é tênue, pequena, frágil e muito rápida, por causa da Ditadura Militar e de vários outros acontecimentos mundo a fora, fala que você não precisa passar a vida muito rápida porque se não ninguém irá perceber a sua presença e, entre as pessoas há um certo tipo de frieza com o trecho:  “Os lábios serão metálicos”. Com isso nos mostra que nosso destino está marcado desde o começo, mas nem por isso precisamos nos prender a ele como se você fosse uma marionete, pois como diz o poema nada tem importância. 

(Alunas : Pamela e Giovanna)
Operário no Mar

Na rua passa um operário. Como vai firme! Não tem blusa. No conto, no drama, no discurso político, a dor do operário está na blusa azul, de pano grosso, nas mãos grossas, nos pés enormes, nos desconfortos enormes. Esse é um homem comum, apenas mais escuro que os outros, e com uma significação estranha no corpo, que carrega desígnios e segredos. Para onde vai ele, pisando assim tão firme? Não sei. A fábrica ficou lá atrás. Adiante é só o campo, com algumas árvores, o grande anúncio de gasolina americana e os fios, os fios, os fios. O operário não lhe sobra tempo de perceber que eles levam e trazem mensagens, que contam da Rússia, do Araguaia, dos Estados Unidos. Não ouve, na Câmara dos Deputados, o líder oposicionista vociferando. Caminha no campo e apenas repara que ali corre água, que mais adiante faz calor. Para onde vai o operário? Teria vergonha de chamá-lo meu irmão. Ele sabe que não é, nunca foi meu irmão, que não nos entenderemos nunca. E me despreza... Ou talvez seja eu próprio que me despreze a seus olhos. Tenho vergonha e vontade de encará-lo: uma fascinação quase me obriga a pular a janela, a cair em frente dele, sustar-lhe a marcha, pelo menos implorar lhe que suste a marcha. Agora está caminhando no mar. Eu pensava que isso fosse privilégio de alguns santos e de navios. Mas não há nenhuma santidade no operário, e não vejo rodas nem hélices no seu corpo, aparentemente banal. Sinto que o mar se acovardou e deixou-o passar. Onde estão nossos exércitos que não impediram o milagre? Mas agora vejo que o operário está cansado e que se molhou, não muito, mas se molhou, e peixes escorrem de suas mãos. Vejo-o que se volta e me dirige um sorriso úmido. A palidez e confusão do seu rosto são a própria tarde que se decompõe. Daqui a um minuto será noite e estaremos irremediavelmente separados pelas circunstâncias atmosféricas, eu em terra firme, ele no meio do mar. Único e precário agente de ligação entre nós, seu sorriso cada vez mais frio atravessa as grandes massas líquidas, choca-se contra as formações salinas, as fortalezas da costa, as medusas, atravessa tudo e vem beijar-me o rosto, trazer-me uma esperança de compreensão. Sim, quem sabe se um dia o compreenderei?

Interpretação:

No poema, Carlos Drummond de Andrade conta a história de um operário que faz o seu trabalho com força e raça, o eu lírico fala de um jeito que o trabalho dele é bem diferente do operário e que nunca irão se entender.
Quando ele vê o operário caminhando pelo mar ele acha aquilo impossível de se fazer, está anoitecendo e então ele repara que há um sorriso entre os dois e esse sorriso poderia mudar tudo e quem sabe um dia os dois não se entenderão.


(Alunas : Danielle e Regiane) 

TRISTEZA DO IMPÉRIO

Os conselheiros angustiados
ante o colo ebúrneo
das donzelas opulentas
que ao piano abemolavam
“bus-co a cam-pi-na se-re-na
pa-ra-li-vre sus-pi-rar”,
esqueciam a guerra do Paraguai,
o enfado bolorento de São Cristóvão,
a dor cada vez mais forte dos negros
e sorvendo mecânicos
uma pitada de rapé,
sonhavam a futura libertação dos instintos
e ninhos de amor a serem instalados nos arranha-céus de
Copacabana,
[com rádio e telefone automático.
Carlos Drummond de Andrade, Sentimento do mundo.

Interpretação: 

No poema, o eu lírico descreve e ataca alguns costumes da alta sociedade, que pode ser considerada egoísta, pois apenas tem preocupações com os próprios interesses, sejam eles comerciais ou não.
A obra se coloca a serviço da análise crítica da realidade, o que é uma característica presente na poesia modernista da 2ª fase.
O eu lírico também relaciona a História ao modernismo e no poema são citados acontecimentos histórios, santos, etc e ainda há uma referência aos arranha-céus, que já eram uma realidade na época de Drummond.
Este poema é uma crítica direta aos costumes e pensamentos da sociedade mais ”abastada”, que continua com uma ideologia ultrapassada e com uma certa “mesmice” ao passar dos anos.

(Aluno  : Carlos)

Confidência do Itabirano

Alguns anos vivi em Itabira. 
Principalmente nasci em Itabira.
 
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
 
Oitenta por cento de ferro nas almas.
 
E esse alheamento do que na vida é porosidade e
 
comunicação.

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.
 
E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
 
é doce herança Itabirana.

De Itabira trouxe prendas que ora te ofereço:
 
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
 
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa...

Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
 
Hoje sou funcionário público.
 
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
 
Mas como dói.

DESCRIÇÃO DO POEMA :

O poema começa com a saudade profunda da terra onde nasceu, trabalhou e viveu a metade de sua vida. Ele demonstra a tristeza, amor e grandes saudades de sua terra natal.
A tristeza pode ser vista na 5ª estrofe, onde no primeiro verso diz “ Tive ouro, tive gado, tive fazenda ” e logo a sua decadência encontrada no verso “ Hoje sou funcionário público “.
A saudade é observada pelo modo em que ele se lembra de sua vida doce e divertida em Itabira, virando apenas uma linda lembrança como é relatado no verso “Itabira é apenas uma fotografia na parede ”.
Neste poema, é possível observar antítese como na 2ª estrofe, verbos “sofrer” ediverte”. Também nota-se uma leve descrição desta cidade na 2ª estrofe, segundo verso “vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes”.

(Alunos : Andressa,Ester)

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

LEMBRANÇA DO MUNDO ANTIGO



Clara passeava no jardim com as crianças.
O céu era verde sobre o gramado,
a água era dourada sob as pontes,
outros elementos eram azuis, róseos, alaranjados,
o guarda-civil sorria, passavam bicicletas,
a menina pisou a relva para pegar um pássaro,
o mundo inteiro, a Alemanha, a China, tudo era tranqüilo em redor de Clara.

As crianças olhavam para o céu: não era proibido.
A boca, o nariz, os olhos estavam abertos. Não havia perigo.
Os perigos que Clara temia eram a gripe, o calor, os insetos.
Clara tinha medo de perder o bonde das 11 horas,
esperava cartas que custavam a chegar,
nem sempre podia usar vestido novo. Mas passeava no jardim, pela manhã!!!
Havia jardins, havia manhãs naquele tempo!!!
Carlos Drummond de Andrade


Conclusão:

O poeta fala que o mundo antigamente era muito diferente, era tudo muito calmo , as pessoas se comportavam de um modo diferente. A natureza era como algo agradável que tem em todo lugar em quanto hoje as pessoas ficam em casa assistindo televisão, também fala que os policias antigamente sorriam e eram felizes e hoje eles cometem crimes e violências. Ele mostra que o mundo mudou por comparar como era nos tempos dele e como está nos dias de hoje pelo verso : ‘’ Havia jardins , havia manhãs naquele tempo ‘’ .

(Alunos: Wagner e Iuri)

MORRO DA BABILÔNIA

À noite, do morro                                                                                        
descem vozes que criam terror
terror urbano, cinquenta por cento de cinema,
e o resto que veio de Luanda ou se perdeu na língua geral,

Quando houve revolução, os soldados se espalharam no morro,                          
o quartel pegou fogo, eles não voltaram.
Alguns chumbados, morreram.
O morro ficou mais encantado.

Mas as vozes no morro
não são propriamente lúgubres.
Há mesmo um cavaquinho bem afinado
que domina os ruídos da pedra e da folhagem,
e desce até nós, modesto e criativo,
como uma gentileza do morro.

Interpretação

No livro Sentimentos do Mundo de Carlos Drummond de Andrade, ele busca retratar o mundo a sua volta com uma criticidade particular e uma visão mais política em seus versos. Devido também a época que foi escrito entre 1935 e 1940 anos após a Primeira Guerra Mundial e o início iminente da Segunda Guerra Mundial com a imposição do fascismo e nazismo, Drummond tenta lutar ou contestar retratando sua realidade.

No poema Morro da Babilônia, a começar pelo título dado pelo autor que faz referência ao Rio de Janeiro no sentido dos morros e faz lembra de algo mais simples como favelas ou seja a classes sociais mais baixas. Babilônia tem o sentido contrário pelo valor histórico e por causa do nobre império babilônico é associada em histórias bíblicas com a palavra babel que seria a mesma coisa que confusão portanto há uma certa ambiguidade de início. O poema descreve um morro, onde aparentemente, ocorre um conflito armado entre moradores e soldados e também fala de vozes que seria o estado de espirito dos moradores ele mostra que mesmo com essa desigualdade toda as vozes (moradores) mesmo com tantos motivos para ficarem triste eles ainda conseguem ser felizes com coisas simples como uma música na hora que ele fala do “cavaquinho”.

(Alunos:Weslley e Diego)
Ode ao cinquentenário do poeta brasileiro

Esse incessante morrer
que nos teus versos encontro
é tua vida, poeta,
e por êle te comunicas
com o mundo em que te esvais.
debruço-me em teus poemas
e neles percebo as ilhas
em que nem tu nem nós habitamos
(ou jamais habitaremos!)
e nessas ilhas me banho
num sol que não é dos trópicos,
numa água que não é das fontes
mas que ambos refletem a imagem
de um mundo amoroso e patético.
tua violenta ternura,
tua infinita polícia,
tua trágica existência
no entanto sem nenhum sulco
exterior — salvo tuas rugas,
tua gravidade simples,
a acidez e o carinho simples
que desborda em teus retratos,
que capturo em teus poemas,
são razoes por que te amamos
e por que nos fazes sofrer...

certamente não sabias
que nos fazes sofrer.
É difícil de explicar
esse sofrimento seco,
sem qualquer lágrima de amor,
sentimento de homens juntos,
que se comunicam sem gesto
e sem palavras se invadem,
se aproximam, se compreendem
e se calam sem orgulho.
não é o canto da andorinha, debruçada nos telhados
[da lapa,
anunciando que tua vida passou à toa, à toa.
não é o médico mandando exclusivamente tocar um
[tango argentino,
diante da escavação no pulmão esquerdo e do pulmão
[direito infiltrado.
não são os carvoeirinhos raquíticos voltando
[encarapitados nos burros velhos
não são os mortos do recife dormindo profundamente
[na noite.
nem é tua vida, nem a vida do major veterano da
[guerra do paraguai,
a de bentinho jararaca
ou a de cristina georgina rossetti:
és tu mesmo, é tua poesia,
tua pungente, inefável poesia,
ferindo as almas, sob a aparência balsâmica,
queimando as almas, fogo celeste, ao visitá-las;
é o fenômeno poético, de que te constituíste o
[misterioso portador

e que vem trazer-nos na aurora o sopro quente dos
[mundos, das amadas exuberantes e das
[situações exemplares que não suspeitávamos.
por isto sofremos: pela mensagem que nos confias
entre ônibus, abafada pelo pregão dos jornais e mil
[queixas operárias;
essa insistente mas discreta mensagem
que, aos cinqüenta anos, poeta, nos trazes;
e essa fidelidade a ti mesmo com que nos apareces
sem uma queixa no rosto entretanto experiente,
mão firme estendida para o aperto fraterno
— o poeta acima da guerra e do ódio entre os[homens —,
o poeta ainda capaz de amar esmeralda embora a
[alma anoiteça,
o poeta melhor que nós todos, o poeta mais forte
— mas haverá lugar para a poesia?
efetivamente o poeta rimbaud fartou-se de escrever,
o poeta maiakovski suicidou-se,
o poeta schmidt abastece de água o distrito federal...
em meio a palavras melancólicas,
ouve-se o surdo rumor de combates longínquos
(cada vez mais perto, mais, daqui a pouco dentro de nós).
e enquanto homens suspiram, combatem ou
[simplesmente ganham dinheiro,
ninguém percebe que o poeta faz cinqüenta anos,
que o poeta permaneceu o mesmo, embora alguma
[coisa de extraordinário se houvesse passado,
alguma coisa encoberta de nós, que nem os olhos
[traíram nem as mãos apalparam,

susto, emoção, enternecimento,
desejo de dizer: emanuel, disfarçado na meiguice
[elástica dos abraços,
e uma confiança maior no poeta e um pedido
[lancinante para que não nos
[deixe sozinhos nesta cidade
em que nos sentimos pequenos à espera dos maiores
[acontecimentos.
que o poeta nos encaminhe e nos proteja
e que o seu canto confidencial ressoe para consolo
[de muitos e esperanças de todos.
os delicados e os oprimidos, acima das profissões e
dos vãos disfarces do homem.
que o poeta manuel bandeira escute este apelo de
[um homem humilde.

Interpretação Jade :

O poema fala da relação do eu-lírico com um outro poeta , uma relação de amizade e admiração, que é revelada por Drummond no decorrer de suas palavras.
Direciona-se a Manuel Bandeira – “que o poeta Manuel Bandeira escute este apelo de um homem humilde.” que completava 50 anos, descrevendo seus sentimentos perante as poesias de Manuel, detalhando e trazendo uma coisa em comum logo nos primeiros versos: “que nos teus versos encontro é tua vida, poeta,e por ele te comunicas” assim como descreve que através de seus poemas Manuel Bandeira se comunica , Drummond acaba se comunicando também.

Interpretação Stefanie:

O belo elogio do poema é a palavra drummondiana a Manuel Bandeira, nascido em 1886 e que, em 1936, completava 50 anos de vida. Drummond pede que “seu canto confidencial (a poesia de Bandeira) ressoe acima dos vãos disfarces do homem”! E para concluir esta fugaz visão do livro Sentimento do mundo, fiquemos com as palavras do último poema, Noturno à janela do apartamento: “ A vida na escuridão absoluta, como líquido, circunda”. Esse poema trata da temática amizade, mas uma amizade estabelecida no plano poético, como se os amigos fossem ligados pelo eu-lírico. São palavras de Carlos Drummond a Manuel Bandeira. No verso: “Esse incessante morrer que nos teus versos encontro é a tua vida, poeta, e por ele te comunicas com o mundo que te esvais.” Drummond faz analogia ao tema de morte encontrado nos poemas de Manuel Bandeira, e nos desejos insatisfeitos que nos poemas do mesmo se encontram.




OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO



Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus. 
Tempo de absoluta depuração. 
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil. 
E os olhos não choram. 
E as mãos tecem apenas o rude trabalho. 
E o coração está seco. 

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se, 
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer. 
E nada esperas de teus amigos. 

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice? 
Teus ombros suportam o mundo 
e ele não pesa mais que a mão de uma criança. 
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios 
provam apenas que a vida prossegue 
e nem todos se libertaram ainda. 

Alguns, achando bárbaro o espetáculo, 
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer. 
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem. 
A vida apenas, sem mistificação.

Interpretação Juliana:

Na obra “Sentimentos do Mundo” podem ser identificados a frustração do eu lírico diante do mundo que o cerca.
Em especial, no poema “Os ombros suportam o mundo” o eu- lírico mostra-se insensível e frio diante da situação que está enfrentando.
Logo na primeira estrofe pode ser observado que os ‘’anos a mais de vida’’ não permitem que o eu lírico seja, de alguma forma, surpreendido. Envelhecer, no poema, parece ser algo que interfere nos sentimentos dele.
A indiferença e a solidão retratadas na segunda estrofe referem-se à falta de acontecimentos novos, o cansaço de viver sempre aquela vida pacata acaba tornando tudo automático, previsível.
Já no final, Drummond faz um apelo para a Primeira Guerra, que ainda era recente, dizendo que muitos ainda sofriam as consequências dela.
Comparando o peso dos ombros com as mãos de uma criança, o eu lírico diz seguir com a vida e enfrentar essa triste realidade.
O ato de mostrar-se incrédulo diante da vida que o cerca é constante, indicando-nos duas certezas que são: O ato desgastante de sentir e a morte.


Interpretação Mathaus:

No poema intitulado Os ombros suportam o mundo, encontramos o ponto de conflito entre o sentimento individual e o sentimento do mundo: as limitações e imperfeições interiores levam o poeta a substituir os problemas pessoais pelos problemas coletivos. O sentimento interior de insuficiência faz com que o poeta deseje atingir a completude através do próximo. O irremediável da condição humana é percebido na condição pessoal e a desarmonia entre os homens e seus atos revela a inevitável condição solitária do ser humano.
No primeiro verso do poema, a experiência de vida não permite ao homem que ele se surpreenda com coisa alguma, por isso não se diz mais “meu deus”. A experiência, aliás, parece revelar ao homem que todo sentimento é inútil, como sugere o restante da primeira estrofe.
Na segunda estrofe, as ações e situações do mundo cotidiano revelam que o homem atinge uma fiel indiferença com a vida, aceitando-a mecanicamente. Isso lhe permite viver sem sofrer, sem temer a morte e aceitar a existência sem nenhuma esperança.
Mas, desse modo, o mundo parece caduco, e por isso não merece ser cantado. É preciso, então, agarrar-se ao presente e tentar construir um mundo mais solidário. É preciso que caminhemos de Mãos dadas.

A NOITE DISSOLVE OS HOMENS


A noite desceu. Que noite!
Já não enxergo meus irmãos.
E nem tampouco os rumores
Que outrora me perturbavam.
A noite desceu. Nas casas,
nas ruas onde se combate,
nos campos desfalecidos,
a noite espalhou o medo
e a total incompreensão.
A noite caiu. Tremenda,
sem esperança... Os suspiros
acusam a presença negra
que paralisa os guerreiros.
E o amor não abre caminho
na noite. A noite é mortal,
completa, sem reticências,
a noite dissolve os homens,
diz que é inútil sofrer,
a noite dissolve as pátrias,
apagou os almirantes
cintilantes! Nas suas fardas.
A noite anoiteceu tudo...
O mundo não tem remédio...
Os suicidas tinham razão.
Aurora,
Entretanto eu te diviso, ainda tímida,
Inexperiente das luzes que vai acender
E dos bens que repartirás com todos os homens.
Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações,
Adivinho-te que sobes, vapor róseo, expulsando a treva noturna.
O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedos,
Teus dedos frios, que ainda se não modelaram
Mas que avançam na escuridão como um sinal verde e peremptório.
Minha fadiga encontrará em ti o seu termo,
Minha carne estremece na certeza da tua vinda.
O suor é um óleo suave, as mãos dos sobreviventes se enlaçam,
Os corpos hirtos adquirem uma fluidez,
Uma inocência, um perdão simples e macio...
Havemos de amanhecer. O mundo
Se tinge com as tintas da antemanhã
E o sangue que escorre é doce, de tão necessário
Para colorir suas pálidas faces, aurora.





Interpretação do poema

Carlos Drummond Andrade escreveu o poema “A noite dissolve os homens” na época da Segunda Guerra Mundial, mas como ele estava no Brasil, não tinha como saber o que realmente acontecia na Guerra, então através das notícias que ele tinha, se inspirou para escrever tal poema, mostrando a população, do seu ponto de vista, o que estava acontecendo na guerra e o que as pessoas que estavam lá, presenciavam.
No poema, há 42 versos divididos em três estrofes e foi dividido em dois segmentos: o primeiro, pode se dizer que se refere à noite como algo ruim, traz uma imagem do universo da guerra, da tristeza e da desesperança,já o segundo se refere à aurora, que dá a ideia de esperança, se referindo à aurora como uma esperança ao povo que vivenciou a guerra.
Nos últimos versos do poema, o eu lírico retrata que apesar da dor, da guerra e da tristeza que o fascismo trazia a população, há esperança para todos, que no poema é simbolizado pela aurora.
E após a esperança atingir os corações, apenas o que resta são os corpos, e um horizonte pintado de vermelho pela derrota, pelo arrependimento e pela inocência que rodeia a todos depois de uma noite de tribulação.
Cada pessoa interpreta algo de uma maneira diferente e Carlos Drummond de Andrade interpretou as notícias da guerra de um jeito diferenciado a ponto de ter se inspirado para escrever tal poema e mostrar as pessoas.

O poema é, de certa maneira, uma ilustração da tristeza e do desespero que algumas pessoas passaram durante a 2ª Guerra Mundial, de acordo com Drummond. E que apesar de muitas mortes e de muitas perdas, houve esperança após toda a luta.
(Aluna: Nathalia)
REVELAÇÃO DO SUBÚRBIO
Quando vou para Minas, gosto de ficar de pé, contra a vidraça do carro,
vendo o subúrbio passar.
O subúrbio todo se condensa para ser visto depressa,
com medo de não repararmos suficientemente
em suas luzes que mal têm tempo de brilhar.
A noite come o subúrbio e logo o devolve,
ele reage, luta, se esforça,
até que vem o campo onde pela manhã repontam laranjais

e à noite só existe a tristeza do Brasil.”



INTERPRETAÇÃO :
No poema, podemos perceber que o eu lírico faz uma viagem para Minas Gerais e ao decorrer conseguimos identificar que essa viagem dura um dia aproximadamente. O eu lírico durante sua viagem vê tristeza e simplicidade no Subúrbio, pois lá é um lugar sofrido, pobre e esforçado um ambiente escuro '' noturno'' , um lugar suburbano.
O poema contém a figura de linguagem personificação , pois nos transmite que o mundo tem sentimentos porque o subúrbio sente medo de que não reparemos suficientemente em suas luzes que mal têm tempo de brilhar.

(Alunos: Lucas Primon e Monica)

Mãos dadas 

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, do tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

Interpretação

O eu lírico afirma a sua consciência da existência de outros homens e seus companheiros. Com eles é que ele se sente de mãos dadas e afirma que não será  de uma mulher, nem de uma história, não irá ver a paisagem vista da janela. Não mais se refugiará na solidão porque o que lhe interessa é o tempo presente em que se acha inserido. O poeta afirma nos versos seu olhar voltado ao presente e a realidade que vivencia .


(Alunas : Raquel e Lauanda)

O SENTIMENTO DO MUNDO

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.

Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.

Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.

Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer

esse amanhecer
mais noite que a noite.

RESENHA

O primeiro poema que dá nome ao livro. Mostra a visão particular de Drummond em relação ao mundo.  O poeta retrata a realidade, o que nos espanta, pois a própria é muito triste e desafiante.
Na primeira estrofe do poema, ele retrata sua impotência perante os problemas e fala de seu refúgio citando suas lembranças e o amor.
O pessimismo em relação ao futuro, com morte de seus sentimentos e sua própria morte.
De certa forma, se sente culpado e se desculpa, talvez por não ter o poder de  proteger ou salvar as pessoas que passaram por sua vida.
Na última estrofe, vê-se a visão negativa do futuro. 
(Aluna: Tamirez Fonseca)

Madrigal Lúgubre

Em vossa casa feita de cadáveres,
Ó princesa ! Ó donzela !
Em vossa casa, de onde o sangue escorre,
Quisera eu morar.
Cá fora é o vento e são as ruas varridas de pânico,
É o jornal sujo embrulhando fatos, homens e comida guardada.

Dentro, vossas mãos níveas e mecânicas tecem algo parecido com um véu.
O mundo, sob a neblina que criais, torna-se de tal modo espantoso
Que o vosso sono de mil anos se interrompe para admirá-lo.

Princesa: acordada sois mais bela, princesa.
E já não tendes o ar contrariado dos mortos à traição.
Arrastar-me-ei pelo morro e chegarei até vós.
Tão completo desprezo se transmudará em tanto amor…
Dai-me vossa cama, princesa.
Vosso calor, vosso corpo e suas repartições,
Oh dai-me ! que é tempo de guerra,
Tempo de extrema precisão.

Não vos direi dos meninos mortos
(nem todos mortos, é verdade,
Alguns apenas mutilados).
Tampouco vos contarei a história
Algo monótona talvez
Dos mil e oitocentos atropelados
No casamento do rei da Ásia.
Algo monótono… Ásia monótona…
Se bocejardes, minha cabeça
cairá por terra, sem remissão.

Sutil flui o sangue nas escadarias.
Ah, esses cadáveres não deixam
Conciliar o sono, princesa?
Mas o corpo dorme; dorme assim mesmo.

Imensa berceuse sob dos mares,
Desce dos astros lento acalanto,
Leves narcóticos brotam da sombra,
Doces unguentos , calmos incensos.
Princesa, os mortos ! gritam os mortos !
querem sair ! querem romper !
Tocai tambores, tocai trombetas,
Imponde silêncio, enquanto fugimos !

…Enquanto fugimos para outros mundos,
Esse que está velho, velha princesa,
Palácio em ruínas, ervas crescendo,
Lagarta mole que escreves a história,
Escreve sem pressa mais esta história:
o chão está verde de lagartas mortas…
Adeus, princesa, até outra vida.

Interpretação: 
O eu lírico diz que quer ficar com a “donzela”, pois para ele o mundo lá fora é ruim. Com ela, tudo é como um sonho para ele, porém quando está sozinho, tudo se torna espantoso para o mesmo. Ele está distante da amada e, então o tempo é de guerra e desprezo, mas diz que irá até ela para que tudo se transforme em amor. Conta sobre a catástrofe ocorrida no casamento do rei da Ásia, onde muitos foram mortos. Mas com toda a guerra, catástrofe, ele deve conformar-se. Ele quer fugir com a amada, quer ir para um lugar seguro, onde ele possa ser feliz.
(Alunos: David, Nicole e Tamires Flavia)