sexta-feira, 6 de setembro de 2013


Madrigal Lúgubre

Em vossa casa feita de cadáveres,
Ó princesa ! Ó donzela !
Em vossa casa, de onde o sangue escorre,
Quisera eu morar.
Cá fora é o vento e são as ruas varridas de pânico,
É o jornal sujo embrulhando fatos, homens e comida guardada.

Dentro, vossas mãos níveas e mecânicas tecem algo parecido com um véu.
O mundo, sob a neblina que criais, torna-se de tal modo espantoso
Que o vosso sono de mil anos se interrompe para admirá-lo.

Princesa: acordada sois mais bela, princesa.
E já não tendes o ar contrariado dos mortos à traição.
Arrastar-me-ei pelo morro e chegarei até vós.
Tão completo desprezo se transmudará em tanto amor…
Dai-me vossa cama, princesa.
Vosso calor, vosso corpo e suas repartições,
Oh dai-me ! que é tempo de guerra,
Tempo de extrema precisão.

Não vos direi dos meninos mortos
(nem todos mortos, é verdade,
Alguns apenas mutilados).
Tampouco vos contarei a história
Algo monótona talvez
Dos mil e oitocentos atropelados
No casamento do rei da Ásia.
Algo monótono… Ásia monótona…
Se bocejardes, minha cabeça
cairá por terra, sem remissão.

Sutil flui o sangue nas escadarias.
Ah, esses cadáveres não deixam
Conciliar o sono, princesa?
Mas o corpo dorme; dorme assim mesmo.

Imensa berceuse sob dos mares,
Desce dos astros lento acalanto,
Leves narcóticos brotam da sombra,
Doces unguentos , calmos incensos.
Princesa, os mortos ! gritam os mortos !
querem sair ! querem romper !
Tocai tambores, tocai trombetas,
Imponde silêncio, enquanto fugimos !

…Enquanto fugimos para outros mundos,
Esse que está velho, velha princesa,
Palácio em ruínas, ervas crescendo,
Lagarta mole que escreves a história,
Escreve sem pressa mais esta história:
o chão está verde de lagartas mortas…
Adeus, princesa, até outra vida.

Interpretação: 
O eu lírico diz que quer ficar com a “donzela”, pois para ele o mundo lá fora é ruim. Com ela, tudo é como um sonho para ele, porém quando está sozinho, tudo se torna espantoso para o mesmo. Ele está distante da amada e, então o tempo é de guerra e desprezo, mas diz que irá até ela para que tudo se transforme em amor. Conta sobre a catástrofe ocorrida no casamento do rei da Ásia, onde muitos foram mortos. Mas com toda a guerra, catástrofe, ele deve conformar-se. Ele quer fugir com a amada, quer ir para um lugar seguro, onde ele possa ser feliz.
(Alunos: David, Nicole e Tamires Flavia)

Um comentário:

  1. ola,gostaria de saber qual o significado da palavra cadáveres nesse texto ..

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