OS OMBROS
SUPORTAM O MUNDO
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
Interpretação Juliana:
Na obra “Sentimentos do Mundo” podem
ser identificados a frustração do eu lírico diante do mundo que o cerca.
Em especial, no poema “Os ombros suportam o mundo” o eu-
lírico mostra-se insensível e frio diante da situação que está enfrentando.
Logo na primeira estrofe pode ser observado que os ‘’anos a
mais de vida’’ não permitem que o eu lírico seja, de alguma forma, surpreendido.
Envelhecer, no poema, parece ser algo que interfere nos sentimentos dele.
A indiferença e a solidão retratadas na segunda estrofe
referem-se à falta de acontecimentos novos, o cansaço de viver sempre aquela
vida pacata acaba tornando tudo automático, previsível.
Já no final, Drummond faz um apelo para a Primeira Guerra,
que ainda era recente, dizendo que muitos ainda sofriam as consequências dela.
Comparando o peso dos ombros com as mãos de uma criança, o
eu lírico diz seguir com a vida e enfrentar essa triste realidade.
O ato de mostrar-se incrédulo diante da vida que o cerca é
constante, indicando-nos duas certezas que são: O ato desgastante de sentir e a
morte.
Interpretação Mathaus:
No poema intitulado Os ombros suportam o mundo, encontramos
o ponto de conflito entre o sentimento individual e o sentimento do mundo:
as limitações e imperfeições interiores levam o poeta a substituir os problemas
pessoais pelos problemas coletivos. O sentimento interior de insuficiência faz
com que o poeta deseje atingir a completude através do próximo. O irremediável
da condição humana é percebido na condição pessoal e a desarmonia entre os
homens e seus atos revela a inevitável condição solitária do ser humano.
No primeiro verso do poema, a experiência de vida não
permite ao homem que ele se surpreenda com coisa alguma, por isso não se diz
mais “meu deus”. A experiência, aliás, parece revelar ao homem que todo
sentimento é inútil, como sugere o restante da primeira estrofe.
Na segunda estrofe, as ações e situações do mundo cotidiano
revelam que o homem atinge uma fiel indiferença com a vida, aceitando-a
mecanicamente. Isso lhe permite viver sem sofrer, sem temer a morte e aceitar a
existência sem nenhuma esperança.
Mas, desse modo, o mundo parece caduco, e por isso não
merece ser cantado. É preciso, então, agarrar-se ao presente e tentar construir
um mundo mais solidário. É preciso que caminhemos de Mãos
dadas.
Muitíssimo obrigado por ter compartilhado conosco essas interpretações maravilhosas! Me ajudou muito no meu trabalho.
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