sexta-feira, 6 de setembro de 2013

OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO



Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus. 
Tempo de absoluta depuração. 
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil. 
E os olhos não choram. 
E as mãos tecem apenas o rude trabalho. 
E o coração está seco. 

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se, 
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer. 
E nada esperas de teus amigos. 

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice? 
Teus ombros suportam o mundo 
e ele não pesa mais que a mão de uma criança. 
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios 
provam apenas que a vida prossegue 
e nem todos se libertaram ainda. 

Alguns, achando bárbaro o espetáculo, 
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer. 
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem. 
A vida apenas, sem mistificação.

Interpretação Juliana:

Na obra “Sentimentos do Mundo” podem ser identificados a frustração do eu lírico diante do mundo que o cerca.
Em especial, no poema “Os ombros suportam o mundo” o eu- lírico mostra-se insensível e frio diante da situação que está enfrentando.
Logo na primeira estrofe pode ser observado que os ‘’anos a mais de vida’’ não permitem que o eu lírico seja, de alguma forma, surpreendido. Envelhecer, no poema, parece ser algo que interfere nos sentimentos dele.
A indiferença e a solidão retratadas na segunda estrofe referem-se à falta de acontecimentos novos, o cansaço de viver sempre aquela vida pacata acaba tornando tudo automático, previsível.
Já no final, Drummond faz um apelo para a Primeira Guerra, que ainda era recente, dizendo que muitos ainda sofriam as consequências dela.
Comparando o peso dos ombros com as mãos de uma criança, o eu lírico diz seguir com a vida e enfrentar essa triste realidade.
O ato de mostrar-se incrédulo diante da vida que o cerca é constante, indicando-nos duas certezas que são: O ato desgastante de sentir e a morte.


Interpretação Mathaus:

No poema intitulado Os ombros suportam o mundo, encontramos o ponto de conflito entre o sentimento individual e o sentimento do mundo: as limitações e imperfeições interiores levam o poeta a substituir os problemas pessoais pelos problemas coletivos. O sentimento interior de insuficiência faz com que o poeta deseje atingir a completude através do próximo. O irremediável da condição humana é percebido na condição pessoal e a desarmonia entre os homens e seus atos revela a inevitável condição solitária do ser humano.
No primeiro verso do poema, a experiência de vida não permite ao homem que ele se surpreenda com coisa alguma, por isso não se diz mais “meu deus”. A experiência, aliás, parece revelar ao homem que todo sentimento é inútil, como sugere o restante da primeira estrofe.
Na segunda estrofe, as ações e situações do mundo cotidiano revelam que o homem atinge uma fiel indiferença com a vida, aceitando-a mecanicamente. Isso lhe permite viver sem sofrer, sem temer a morte e aceitar a existência sem nenhuma esperança.
Mas, desse modo, o mundo parece caduco, e por isso não merece ser cantado. É preciso, então, agarrar-se ao presente e tentar construir um mundo mais solidário. É preciso que caminhemos de Mãos dadas.

Um comentário:

  1. Muitíssimo obrigado por ter compartilhado conosco essas interpretações maravilhosas! Me ajudou muito no meu trabalho.

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